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Acessibilidade

Acessibilidade

A visão de um cadeirante sobre a acessibilidade nos jogos olímpicos

Por: Pablo André Flôres

As pessoas com deficiência representam um contingente de aproximadamente 46 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados do último Censo realizado em 2010. E, muito embora estejam amparadas pela Constituição Federal, pela Convenção Internacional da ONU e, mais recentemente, pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, além de outros inúmeros diplomas legais, esses brasileiros convivem diariamente com o desrespeito aos seus direitos e a sua cidadania. A precariedade do transporte coletivo, a falta de escolas acessíveis e professores habilitados, os postos de saúde e hospitais inacessíveis, o mercado de trabalho resistente, a falta de acessibilidade na maioria dos espaços de uso coletivo são apenas alguns dos obstáculos enfrentados por quem tem alguma deficiência em nosso país. Somadas a essas restrições, aliam-se as barreiras arquitetônicas e, principalmente, as atitudinais, ou, em última análise, o preconceito e a discriminação.

Paralimpíadas do Rio 2016 vista por um cadeirante

 

Contrapondo-se a essa realidade, a experiência vivida pelos torcedores com deficiência nos Jogos Olímpicos Rio 2016 foi, na minha visão, muito satisfatória. Assisti a eventos em sete arenas/estádios (Maracanã, Maracanãzinho, Arena de Copacabana, Estádio Olímpico, Arena Carioca 1, Arena Olímpica e Centro Olímpico de Hóquei) e em relação a cada uma delas a) havia informações sobre acessibilidade e dicas para a utilização do transporte coletivo no site rio2016.com; b) inúmeros voluntários prestativos davam informações e suporte para os deslocamentos nos locais; c) as estações de trem, metrô e BRT, os terminais, os veículos, incluindo os de transporte auxiliar, ofereciam condições de acessibilidade para os usuários de cadeira de rodas; d) os espaços reservados para as pessoas com deficiência, via de regra, ofereciam ótima visibilidade do jogo/prova/apresentação.

Quadra de Volei das paralimpíadas do Rio 2016 vista por um cadeirante

É claro que, diante da magnitude do evento, alguns contratempos ocorreram. Por exemplo: no Maracanãzinho, a localização dos banheiros adaptados era longe dos espaços reservados para os cadeirantes, assim como os bares, inexistentes no andar em que os torcedores com deficiência viram as partidas de vôlei. No Maracanã e no Estádio Olímpico, por sua vez, foi muito frequente encontrar torcedores sem deficiência utilizando indevidamente as vagas reservadas para pessoas com deficiência, o que gerou alguns (poucos e breves) dissabores. Na Arena Copacabana, o problema enfrentado foi de outra natureza: o espaço reservado para as pessoas com deficiência tinha boa localização, entretanto na oportunidade em que os demais torcedores levantavam se, no curso da partida, a visibilidade ficava significativamente prejudicada. Enfim, a experiência vivida no Rio 2016 foi inesquecível e a ansiedade pelos Jogos Paralímpicos está elevadíssima, e não vejo razões para imaginar que essa nova oportunidade será menos encantadora. Ao contrário. Entretanto, o aspecto mais importante que decorre da realização dos jogos em agosto e setembro no Brasil, na minha perspectiva, diz respeito à experiência de que é sim possível realizar eventos e adaptar espaços coletivos PARA TODOS, a fim de que a igualdade de oportunidades, tão frequentemente sonegada em nossas terras, seja vivenciada inteiramente por cada um de nós.

Quadra de basquete das paralimpíadas do Rio 2016 vista por um cadeirante

Aproximadamente um entre quatro brasileiros tem uma ou mais deficiências, logo, deixar de garantir acessibilidade a todos é uma desumanidade inaceitável, além, é claro, de ser ilegal e representar um crime tipificado no Estatuto da Pessoa com Deficiência. Além disso, outra oportunidade ímpar que não se pode deixar de observar diz respeito à demonstração de tenacidade e aguerrimento dos paratletas. Superando os seus limites (quem não os possui?) e, muitas vezes, as desconfianças e preconceitos alheios, esses atletas buscam as vitórias, as medalhas e a superação das marcas e, em última análise, o reconhecimento de que são simplesmente pessoas que estão correndo atrás de seus sonhos e, como tais, merecem respeito e admiração.

Torço para que a experiência Rio 2016 produza efeitos significativos em nosso país em inúmeras áreas, especialmente que transforme a garantia legal de acessibilidade em um direito fundamental respeitado e colocado em prática em todos os municípios brasileiros, tornando­ se esse o legado mais palpável da experiência (Para) Olímpica.

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