Atitude

Crianças praticam música em baldes no Vidigal

Aprender percussão de forma descontraída e de quebra ajudar no desenvolvimento de jovens e crianças é a ideia do projeto.

Toda sexta-feira ao entardecer o “arvrão”, local conhecido dos moradores da comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro, escutam o som de jovens percussionistas e seus baldes azuis. Ali a céu aberto, com as cores dos rio, os grafites nas paredes e gente passando as crianças e jovens recebem as instruções e se aproximam da música. As aulas ficam por conta da percussionista Isis Maria integrante do grupo Morenas de Sol.

Grupo Morenas do Sol

A vontade de ensinar percussão para as crianças surgiu no carnaval, durante os ensaios da banda, enquanto nós tocávamos as marchinhas e eles cantavam as músicas sempre dispostos a ajudarem com os instrumentos, no entanto, após o carnaval eles continuaram frequentando os ensaios, mesmo após a escola, conta Isis. Surgiu daí possibilidade de começarmos a praticar música juntos. Joguei a ideia em um dia e eles próprios se agendaram, me disserem data e hora, comenta.

“Tudo que eu precisava ser era um canal de transmissão musical mesmo, eles já queriam fazer o que eu fazia com a banda, começamos as aulas na semana seguinte e nosso primeiro ritmo de funk demorou por volta de 1 hora pra sair, logo estávamos com convidados olhando a gente tocar e naquele momento era o espaço deles como grupo, então continuamos praticando”, conta Isis.

Foto realizada pelos alunos durante a aula

Propor essa troca entre as crianças da comunidade, ensinar o que foi aprendido noutro momento não tem preço. Ao todo ainda são poucos os meninos e meninas que aprendem a batucar, mas a cada dia a procura aumenta. Durante nossa conversava ela contou que a ideia de ensinar a “tirar sons de baldes”, surgiu no momento em que praticava em casa e lembrou de uma troca de uma conversa com outros músicos e achou interessante quando viu a possibilidade do balde como instrumento musical. Pronto, bastou. Um tempo depois seu padrinho musical, como se refere a quem lhe proporciona os instrumentos, mandou dos Estados Unidos diversos baldes e então iniciaram as aulas.

O Vidigal é um local onde as pessoas já possuem o costume de ter manifestações artísticas acontecendo pelas ruas, seja pela Grupo de Teatro Nós do Morro, seja por gravações de cinema, TV e comerciais. Com as aulas de percussão não foi diferente. Ocupar as ruas, e auxiliar as crianças e jovens a terem outra perspectiva por meio da arte e da música é a energia empenhada nesse “pequeno projeto”, se é que se pode falar assim.

“Tive que aprender como a disciplina da música funcionava, estudar além, estudar no descanso, estudar é a parte mais importante, precisei aprender a gostar um pouco de matemática na escola, depois iniciei a estudar inglês e minha qualidade musical deu um salto, então levo isso para as crianças e pra quem está do meu lado”, Isis.

Morenas de Sol
Onde tudo começou

A banda surgiu sonho de quatro jovens atrizes que resolveram dar continuidade ao projeto que teve início no Grupo de Teatro Nós do Morro em 2008, do projeto musical “Meninas do Nós” que teve um processo artístico até 2013 com maestros da percussão, dança afro e o teatro. A força do som das meninas contagia por meio dos seus tambores, repique, caixa e surdos de diversos tons, trazendo o canto com mensagens de amor e alegria em suas letras dançantes, mostrando a essência e feminilidade da mulher na percussão brasileira.

Grupo Morenas de Sol em apresentação

Além da energia musical o projeto vai além propondo a promoção do desenvolvimento social e cultural, como forma de cidadania e como maneira de ressaltar a força da mulher. Para as meninas, poder fazer parte da luta feminina é um orgulho, e buscar transformar o ambiente onde vivem, e se apresentam é essencial para o desenvolvimento da banda e dos projetos.

Atitudes como esta, das Morenas de Sol, da Isis e de muitas outras pessoas espalhadas pelo Rio, São Paulo e tantas outras cidades do Brasil é que fazem acreditar que inspirar, e crer na troca de informação faz a diferença. Então sigamos com o som, com a música, com as aulas, com os baldes…

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