Atitude

She-wolf: Conheça a arte de Thaís Helena

Do Brasil à Califórnia, artista plástica inspira-se em Cleo para retratar o poder da feminilidade

Natural de São Paulo, Thaís Helena Guidolin M. Ouzounian tinha 30 anos quando deixou o Brasil para viver na Califórnia. Advogada, mudou-se para São Francisco para viver com seu então marido, a quem conheceu no aeroporto e hoje divide uma família. No outono norte-americano encontrou nas características folhas caídas a inspiração para um projeto artístico que hoje, três anos depois, já esteve presente em exposições pela Califórnia e compõe o acervo permanente da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. A artista chegou ao site Cleo através do trabalho Work of Art, uma representação da força e liberdade feminina através da face de Cleo.

A ARTE DE THAÍS

Após anos vivendo nos Estados Unidos, Thaís, que nesse período optou por dedicar-se à criação dos dois filhos, passou a buscar uma nova ocupação. “Eu acredito que fui guiada a esse caminho”, ela diz quando conta sobre o start de seu desenvolvimento artístico: caminhava com os filhos por um parque de São Francisco quando viu nas folhas que caiam inspiração e oportunidade para criar. Recolheu aquelas folhas, deixou secar, e aplicou em uma tela de pintura junto a tintas, texturas e a partir daí passou a criar a sua marca enquanto artista.

O trabalho de Thaís é caracterizado por enorme influência das folhagens secas e as cores que envolvem o outono: “Sempre fui apaixonada por essa época do ano. Em outubro é uma explosão de vermelho, laranja e dourado inebriante”. Junto às cores, texturas e formas que surgem, a artista inclui a cada obra uma poesia. Algumas vezes, ela conta, a inspiração visual surge após a leitura de um livro. Em outras, só após a imagem ela busca um escrito que a complemente. Não há regras: “Eu tenho tanta coisa para mostrar, para falar, que não consigo definir um estilo. Do jeito que a ideia vem eu preciso colocar no papel. É um leque aberto”.

Homenagem a Cleo simboliza a força natural da mulher. (Cortesia Thais Helena Studio)
“Uma mulher-lobo não se desculpará por ser serena e selvagem. É puro instinto animal. Ela é uma obra de arte.” (Cortesia Thais Helena Studio)

A LIGAÇÃO COM CLEO

Mesmo fora do país, Thais mantém a leitura de jornais e revistas nacionais como forma de lembrar de casa. Em uma dessas leituras, conta, viu um artigo sobre a Cleo que lhe chamou atenção “pela postura forte e exuberante, imponente”. Tratava-se de uma chamada para um vídeo-campanha do Lado C (relembre aqui). Mesmo sem participar da campanha, foi nesse momento que pensou na oportunidade de entrar em contato. A identificação, porém, vem de muito antes.

“Acredito que minhas imagens se identificam com a Cléo não apenas pelos elementos naturais, mas pela força, pela independência, pelo magnetismo feminino que animam minhas figuras de mulher. A Cleo é uma menina linda que carrega dentro de si esta força visceral que me é familiar e propulsora de meus trabalhos. Um prazer retratá-la.”

O livro “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estes, foi a primeira inspiração para a obra com a face de Cleo. Para Thaís, a figura da mulher-felina é a simbologia de toda a sensualidade e mistério do feminino, e conta que vê em Cleo esse poder latente. Para a arte-homenagem, conta que buscava mais do que a beleza: queria expressar força. Utilizou uma foto de Daryan Dornelles, pois mostra esse olhar e postura. A artista incluiu também uma carta onde discorre sobre essa relação. Leia abaixo:

“A tecnologia, que por vezes pode nos desconectar da plenitude da vivência do momento, tem também o delicado condão de fazer deste mundão um mundo, de fato, pequeno, de ligar pessoas próximas em afinidade mas separadas pela poeira da distância.

Cleo e eu nunca estivemos juntas mas por uma relação que se iniciou online podemos hoje dar vida a um trabalho artístico resultado deste encontro que `as vezes existe entre pessoas que, de fato, nunca se encontraram.

Daqui da dourada Califórnia observo essa menina-mulher, essa gata-leoa que percorre os caminhos da vida a vivendo em abundância.

A força interior, a independência, o pulsar pela vida, o carisma, e o mistério me são temas caros. Adoro observar, sentir e trazer isto à baila nas mulheres que retrato.

A despeito de como somos na superfície, no invólucro que nos cobre, a mim o grande barato é buscar revelar parte do âmago, da faísca linda que queima dentro de cada uma de nós.

Sob a superfície da pele lisa desta mulher habitam a calmaria e a tempestade, o porto seguro e o abismo.

Misto de fêmea e loba o seu bailar sobre os palcos de lua cheia da vida é um convite à vida.

Um enigma que, mais do que ser decifrado evoca ser contemplado, sorvido, plasmado.

Afinal, como já disse Manuel de Barros, poesia não é para entender, é para incorporar.

Oxalá seja Cléo, aqui traduzida pelas cores, formas, palavras e lírios selvagens de minha arte poética, oxalá seja tudo isto este convite a cada um de vocês.

Namaste.”

RECONHECIMENTO

Nos três anos desde a inspiração com as folhas do parque, o trabalho de Thaís Helena ganhou seu espaço na região de São Francisco e esteve presente em galerias locais. “Sou muito grata, pois 3 anos é muito pouco, é um bebê”, ela pontua.

Um marco no reconhecimento da artista é a obra Most Beautiful Children Of Earth (As mais belas crianças da Terra), desenvolvida em 2015 e que hoje está em Nova York, no acervo da ONU. A peça, uma árvore cujo tronco é um casal e as folhas são rostos de crianças, foi desenvolvida em homenagem ao aniversário de 70 anos da organização, que realizou em São Francisco um evento com o tema “diversidade e diálogo”.

Obra foi presente ao vice-secretário da ONU Jan Eliasson. (Cortesia Thais Helena Studio)
Obra foi presente ao vice-secretário da ONU Jan Eliasson. (Cortesia Thais Helena Studio)

“O homem representa a diversidade, e a mulher o diálogo. Da união entre esses ‘países’ surge a harmonia próspera, e os frutos são as crianças de toda parte da Terra, retratadas florescendo entre os galhos da árvore”, explica ela.

O convite para a produção veio através de um dos membros da delegação do evento, como presente ao até então vice-secretário-geral Jan Eliasson.

Apesar do breve período desde que iniciou suas produções, Thais conta que há três anos foi somente o início da materialização, mas que sempre viu o mundo através das lentes da arte e da poesia: “O meu respiro sempre foi artístico”.

Confira outros trabalhos da artista abaixo:

Acesse o site, Twitter, Instagram, e Facebook de Thais Helena.

Inscreva-se na Newsletter do site da Cleo