Jum Nakao e a costura do invisível

A mistura de moda, artes plásticas, design e talento é que leva a arte de Jum Nakao a diversos lugares do mundo. O brasileiro, neto de japoneses, vive em São Paulo e colabora para a moda brasileira se tornar referencia já faz alguns anos. Em 1996, no extinto Phytoervas Fashion e passa a ocupar o cargo de Diretor de Estilo de uma das maiores empresas de moda do Brasil, a ZOOMP, onde permanece por seis anos.

Marisa Monte usa figurino de Jum Nakao no encerramento das Olimpíadas de Londres
Marisa Monte usa figurino de Jum Nakao no encerramento das Olimpíadas de Londres
Reprodução da Internet

Nakao se destaca como um dos maiores exploradores da modelagem no país, utilizando plataformas distintas, e objetos diversos para seus experimentos de formas e volumes. Durante sua carreira tem desfiles icônicos e surpreendentes como o desfile-manifesto “A Costura Invisível”, do São Paulo Fashion Week 2004. Quando criou figurinos inteiros de papel que foram rasgados ao final do desfile, abrindo um universo múltiplo e criativo não só em sua obra, mas para os demais estilistas e estudantes de moda do país a fora.

Obra de Jum Nakao inspirada no universo dos irmãos Quay
Obra de Jum Nakao inspirada no universo dos irmãos Quay
Reprodução da Internet

A arte de Nakao é feita de momentos marcantes, outro que pode ser destacado foi a fusão entre arte, moda e design quando ele se inspirou no Brothers Quay, realizando uma coleção tributo à obra dos irmãos animadores –Stephen e Timothy Quay. A obra deles teve grande destaque na década de 70 por propor uma estética nova aos curtas de animação, com o resgate de técnicas antigas de animação usadas pelas escolas tcheca e inglesa no final do século XIX.

“Precisamos desnudar a nossa alma para revelar a capacidade de sermos leves, sonhar com indizíveis, impossíveis, inexplicáveis, indefiníveis”, afirma Jum Nakao.

Há algum tempo Jum Nakao não vem apresentando coleções nas passarelas do SPFW, mas trabalha a moda em forma de arte-educação em workshops pelo Brasil. A proposta vai além de qualificar os estilistas e costureiros pelo país, busca trazer ferramentas para que as criações sejam cada vez melhores, aprimorando o corte, trazendo senso crítico e juntando com o atual processo da moda, de consumo consciente. Tornando visível costuras outrora invisíveis, alinhavando moda, arte, cultura, cidadania, consciência e transformação.

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Visibilidade Trans

No domingo, 29 de janeiro, é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Trans, marco da luta pela cidadania e respeito às travestis, homens e mulheres trans. A data foi criada em 2004 e tem como objetivo ressaltar a importância do respeito a esse grupo na sociedade brasileira. Ainda hoje, a população de trans e travestis tem grande dificuldade no acesso à educação, trabalho e saúde, além de ser vítima de violência e preconceito diariamente.

O Brasil é o país com maior índice de assassinatos de transexuais e travestis, segundo o relatório divulgado pela ONG Transgender Europe (TGEU), mais de 600 mortes no período entre janeiro de 2008 e março de 2014. Em contraponto, no país, a busca por pornografia trans é uma das maiores do mundo, segundo pesquisa de site pornô. Não mostra números específicos, mas ressalta algumas características sobre a relação do país com a pornografia. “Você tem 89% mais chances de pesquisar sobre transexuais [no RedTube], se vier do Brasil”, afirma o texto. Um paradoxo quando relacionado ao número de mortes por transfobia.

Athos Souza
Athos Souza, 27 anos

O número de transexuais femininos no país, homens que retificam o sexo para feminino é muito maior que o inverso, mulheres que retificam sua sexualidade e gênero para o masculino. Os casos de trans-homem são crescentes, no entanto, existe ainda pouca visibilidade. Athos Souza, 27 anos, gerente de marketing, diz que, infelizmente, a visibilidade é bem falha com toda certeza, até mesmo dentro do meio LGBT.

“Demorei muito tempo até ouvir falar em homem trans, porém a primeira vez na vida que escutei o termo foi em uma reportagem com o João W. Nery, foi quando resolvi pesquisar sobre o assunto e me deparei com uma quantidade enorme de homens trans que eu não fazia ideia da existência”, reflete Athos.

Talvez pelo fato de querer evitar a transfobia, evitar algum tipo de violência muitos preferem não se identificarem como trans (fato que não nos torna menos homem que um cis), percebo também o quanto as mulheres trans e travestis são unidas se tratando da luta pelos seus direitos, elas tem voz ativa e é graças a elas que nós estamos começando a mudar a nossa situação atual. Eu procuro fazer minha parte por essa visibilidade fazendo questão de me apresentar como homem TRANS, pois as pessoas precisam saber que nós existimos e podemos ocupar qualquer espaço.

As pessoas são múltiplas e plurais. Até a masculinidade é no plural: masculinidades. E tanto as masculinidades quanto as feminilidades são invenções sociais, que mudam de cultura para cultura, de tempos em tempos. Ainda hoje formam psicólogos, enfermeiros, médicos etc. que não sabem a diferença entre gênero e sexo. É necessário de debater mais, falar sobre o assunto, desfazer amarras e se propor a escutar o outro, dialogar.

A cantora Valéria Houston Barcellos, 37 anos, há dois anos retificou sua documentação, conseguindo por fim ter seu nome modificado nos documentos, inclusive na certidão de nascimento. Antigamente era possível trocar de nome na identidade e certidão, no entanto o sexo não mudava nos documentos, somente modificaria caso a pessoa fizesse uma cirurgia pra tal. A evolução no processo afirma que o gênero independe da genitália, sendo a transsexualidade algo mental e não genital, pontua Valéria.

Valéria Houston
Valéria Houston
Foto: Igor Mota

“É meio louco pensar que toda essa história de retificação de nome tenha todo esse empecilho. As pessoas precisam entender que ser transsexual independe de genitália ou de aparência física. Enquanto isso não acontecer, enquanto tiver essa aura, esse universo que circunda o meio trans, que esbarra na sexualidade na marginalidade, vai continuar sendo assim. Atitudes como essa de vocês é muito importante, as pessoas precisam se aproximar de tudo isso, saber mais sobre, trocar informações. Conheça antes, deixe-nos aproximar, queremos nosso espaço, nada além”, Valéria Houston.

O mercado de trabalho quase inexiste para as pessoas trans, a maioria acaba se prostituindo por falta de opção de empregos. Um característica que precisa mudar. Algumas empresas e organizações espalhadas pelo Brasil buscam inserir estas pessoas na sociedade de trabalho de forma que possam exercer funções diversas na sociedade- recepcionista, atendente, vendedor, professora, médico, entre tantos outros trabalhos possíveis de serem exercidos por seres humanos.

O meio artístico sempre foi mais receptivo para a transgenia e transsexualidade, como um espaço mais livre e aberto, muitos profissionais da beleza, artistas, esteticistas são trans e abrem caminhos para que outros se espelhem e busquem seu lugar. A maquiadora paulista Carol Prada é uma exemplo disso, profissional da beleza, ela atua no mercado há 15 anos e é uma das profissionais mais procuradas.

“Eu acho maravilhoso ser maquiadora. Me sinto, às vezes, a fada madrinha da cinderela. Diria que o mercado dá beleza nos recebe sempre de braços abertos, é como coração de mãe sempre cabe mais um(a). E o que vai nos manter nesse mercado é o profissionalismo e claro muita coragem e gentileza. Para todxs que quiserem se integrar no mercado de trabalho, pra mim o mais importante, em qualquer área é gentileza, educação e coragem”, pontua Carol.

Carol Prada
Carol Prada

Pra Joana Couto, modelo, ser mulher trans tem muito a ver com realização. E com o ser político, abrir espaço e representar. Com 26 anos de vida o mercado de trabalho tem sido muito mais amistoso do que pude imaginar antes da transição, mas ainda levando em consideração outros privilégios como ter tido apoio da família e estudos, afirma.

Eu diria que vale a pena o nosso direito de ser, mesmo com as dificuldades, é muito bom ter a liberdade de ser. E juntas, unidas, somos muito mais visíveis e fortes. E nossos diretos estão sendo exigidos e conquistados. Não podemos nos esconder!

“Acho pertinente dizer que não devemos enlouquecer a procurar a normatividade desenfreada, um casamento só por status ou imposição social. Seja livre,” ressalta Joana.

Joana Couto
Joana Couto

O caminho de aceitação e inserção social vendo sendo criado, mas há muito ainda para se percorrer para que esse grupo seja, de fato, acolhido pela sociedade e possamos ter e ver mais trans ocupando cargos de destaque na sociedade, com maior aceitação e admiração, pois afinal, a sexualidade de cada um é de cada um, o que interessa realmente é o caráter, o que se é como ser humano. Que o dia 29 de janeiro seja a lembrança de que se deve ir além, muito mais além.

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