A arte de rua de Luna Buschinelli

Recentemente o Rio de Janeiro recebeu um dos maiores painéis de street art/grafite feito por uma mulher. A obra já destinada a entrar no Guinness Book, traz novamente o olhar para a o grafite feito no país. Luna Buschinelli, de 19 anos é a artista responsável pela obra. Ela foi convidada pelo produtor Pagu para participar do projeto e trabalhou das 8h às 18h por aproximadamente um mês para criar o “Conto”, título do painel que chama atenção por trazer cor para área central da cidade, em específico para um paredão de 2.500 m² da Escola Municipal Rivadávia Corrêa na Av. Presidente Vargas.

Atitudes como essa de tornar a cidade colorida e resignificar seus espaços é lindo de se ver, ainda mais no Rio, onde a cultura do grafite até então não aparecia tanto quanto em São Paulo. Entramos em contato com Luna para saber um pouco mais sobre o processo de trabalho e o significado da obra como um todo.

Grafite localizado na Av. Presidente Vargas ilustrando uma menina segurando um elefante de pelúcia, em fundo rosa
Divulgação

1- Como e quando você começou sua carreira como artista? Qual foi seu primeiro contato com a street art/Grafite?

Eu desenho desde sempre, para mim desenhar e pintar faz parte do meu eu, por isso não consigo pensar em um início para tudo, entretanto me decidi a trabalhar com arte aos quinze anos, no final de 2012. Meu primeiro contato com a arte urbana foi nessa época também, foi quando me aventurei a aprender a técnica de spray e sair para as ruas e começar a pintar de verdade. Até então eu só pintava desenhava para mim, a partir dali tornei tudo o que fazia algo público.

2- Você tem algum artista que a inspire para criar as obras?

Eu considero que seja inspirada por tudo a minha volta, não só por artistas plásticos que admiro, mas também por outras formas de arte ou detalhes do cotidiano. Mas costumo ter grande influência no meu trabalho da artista Remédios Varo, Hieronymus Bosch, e do diretor francês Michael Ocelot, dentre vários outros.

3- Como surgiu o convite para fazer o painel “Contos” no Rio de Janeiro?

Fui convidada pelo produtor Pagu a fazer o mural, foi um projeto que andou muito rápido mas foi muito bem pensado e discutido, e não poderia ficar mais feliz com o resultado.

4- O que você quis passar no grafite Contos? A escolhas das cores, em particular o azul, foram trazidas por quais motivos?

Com o trabalho, além de contar uma história e trazer muito empoderamento, quis aflorar os sonhos mais pessoais de cada um, tanto de cada criança, professor e funcionário da escola quando daqueles que param para ver na rua. Vejo a mensagem final do mural como que, somos do tamanho dos sonhos que temos, e devemos sempre acreditar em nós mesmos porque primeiramente, se não nós, quem?

As cores são algo que florescem de mim. Eu não trabalho com uma lógica ou psicologia das cores conscientemente, tudo isso é algo que eu já tenho pré-estabelecido dentro de mim. O processo de colorir as imagens pra mim talvez seja mais natural do que o próprio desenho, embora não negue que os tons frios como o azul sempre estejam muito presentes.

Grafite ilustrando uma mão negra segurando uma lua minguante no meio do céu
Divulgação

5- Como foi o trabalho, tiveram partes muito complicadas de serem realizadas?

Todo novo trabalho é um grande desafio, principalmente um desta magnitude. Existiram partes mais trabalhosas de se fazer, como o vestido da mulher presente no mural, e outras que foram mais trabalhosas para mim psicologicamente, como por exemplo a paciência. Eu sempre costumei ser muito ansiosa, mas fui aprendendo a ter paciência ao longo do tempo e ao amadurecer do meu trabalho. Na minha opinião quanto mais detalhado mais vivo e mágico é o projeto, e eu sou muito apegada a esses detalhes. E por mais que sempre haja uma ansiedade para ver o painel pronto no final, o processo muitas vezes é o mais importante.

6- É notório que a street art tem diversos artistas homens, pra você como foi, e como está sendo estar nesse meio, e já com um trabalho desse porte?

É uma sensação indescritível poder estar trazendo tanta força hoje, e talvez abrindo tantas portas não só para mim como para tantas mulheres do meio artístico. É uma honra poder ser eu, mesmo sendo tão nova, a puxar talvez uma nova geração de novas artistas grafiteiras e mostrar que nos mulheres temos muito a dizer, muito a mostrar e ensinar.
Estou muito orgulhosa.

7- O maior grafite do mundo feito por uma artista mulher, o que isso quer dizer pra você?

Existem murais enormes espalhados pelo mundo, mais até então muitos poucos feitos por mulheres. Ter feito o maior grafite do mundo feminino para mim um toque inicial, para poder trazer muito mais disso para esse universo de grafite.

Grafite que cobre toda a parede do prédio de uma escola no meio da Av. Presidente Vargas, de uma mulher negra lendo livro para crianças
Divulgação

8- Você percebe o significado e os desdobramentos para as mulheres, artistas ou não, no que tange ao empoderamento feminino, a grandiloquência de sua obra?

Sim, com certeza! Antes mesmo de terminar o projeto eu já estava com muito orgulho do que aquilo poderia representar e trazer de novo para a sociedade. Mas fiquei surpresa com a repercussão e o apoio que recebi ao longo pro final do projeto. O tanto de mensagens que recebi e de pessoas que vieram falar comigo, falando sobre orgulho, empoderamento da mulher ou simplesmente por se sentirem representadas pelo mural foi enorme.

9- Você se considera feminista?

Sim! Sou feminista sim e com muito orgulho.
Mas por mais que me considere ainda acho que tenho muito a aprender sobre o movimento. Acredito também que este deveria ser um tema muito mais discutido e debatido, afinal muitas pessoas têm ideias muito erradas sobre o que realmente se trata.

10- O Rio de Janeiro surge como um novo cenário possível de ser embelezado por meio do grafite, já que São Paulo vem sofrendo com a “limpa” proposta pelo administrador da cidade?

Como não moro no Rio e mal tive tempo para o conhecer de fato já que trabalhei todos os dias incessantemente, muito pouco posso dizer sobre as políticas e divergências entre as duas cidades, embora aprecie muito essa atitude de dar visibilidade e trazer mais street art para o lugar assim como o Rio está fazendo.

11- Podemos esperar outras grandes sobras suas pelas cidades do Brasil?

Com certeza! Já tenho outros projetos em andamento, e espero poder falar e trazer muito mais voz para as mulheres e sonhos para aqueles que acreditam.

 

 

*Imagem destaque: Humberto Ohana

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