Atitude
Transfobia

Transfobia

No Brasil o índice de assassinatos de pessoas trans é grande, precisamos mudar isso.

Será que estamos perdendo a humanidade? Ainda dá tempo de sermos humanos? O que nos torna diferentes? O que nos torna iguais?

São muitas perguntas, muitas respostas, muita falta de respostas e também muita falta de ação. A sociedade vem se transformando radicalmente ao longo dos anos com as modificações sociais e inserção de novas tecnologias no nosso cotidiano, no entanto algumas coisas parecem não sofrerem alterações. Vivemos um tempo fragmentado, cada um por si no mundo capitalista, vivemos o momento das tribos, falamos com os iguais e por afinidades. O que fazemos com o que diverge ou difere de nós? Precisamos reaprender a dialogar, e humanizar.

O Brasil tem um dos maiores índices do mundo de pessoas transsexuais assassinadas segundo a ONG Transgender Europe. O último Relatório de Violência Homofóbico data de 2013, para investigar as estatísticas é preciso encontrar meios alternativos de captar essas informações. Só em 2016 foram aproximadamente 300 casos de homofobia onde 127 eram transexuais, trangêneros e travestis. As causas mortis, as mais variadas e cruéis possíveis – asfixia, facadas, pauladas, pedradas e tiros, sem contar as inúmeras atrocidades realizadas durante os crimes.

Bruna Benevides, 37 anos, casada, militar, militante LGBT e Ativista Transfeminista, Secretaria de Articulação Política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), ressalta que no brasil não há nenhuma lei pro LGBT, apenas resoluções, portarias e decretos que visam, minimamente, trazer um resgate do que o movimento LGBT e Trans tem tido ao longo de todo o processo de debate e emancipação dos corpos, e empoderamento frente as discussões de identidade de gênero.

“Fica complicado pra nós lutar por qualquer direito se o direito principal, que é o direito à vida, nos está sendo negado. Falo disso por causa da nossa maior luta, a sobrevivência. Hoje não conseguimos nem sobreviver. A estimativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, enquanto do restante da população é de 79 anos. Existe uma perda ou um roubo de 44 anos da nossa existência, então hoje nem se consegue sobreviver, afirma Bruna.

Qual seria a solução para esse tipo de crime? Criação de leis? Punições mais severas? Questionado sobre isso o Deputado Federal Jean Wyllys falou sobre o tema para o site. Segundo ele a solução, além de medidas imediatas de políticas públicas de segurança que os governos deveriam tomar, usando as leis que já existem, para prevenir e investigar esses crimes para que não fiquem impunes, precisamos produzir uma mudança cultural profunda na sociedade. Não é uma resposta fácil, leva mais tempo, mas é a única solução.

“Cada vez que um pastor evangélico fundamentalista ou um deputado fascista usa os veículos de comunicação, o culto religioso, a tribuna do Congresso ou as redes sociais para fazer discurso de ódio contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, milhares dos seus seguidores se sentem legitimados para espancar, praticar bullying, insultar ou simplesmente matar. O discurso de ódio desumaniza seus alvos, torna-os “matáveis” porque diz que suas vidas não têm o mesmo valor que outras. O crescimento desses discursos sempre vem acompanhado de um crescimento da violência, que na maioria dos casos fica impune, ressalta Jean.

Para Bruna é preciso se falar também, sobre exclusão, que se dá a partir de pais que não estão preparados para esta discussão e isso se reverbera e se perpetua na sociedade como algo realmente ignorante, no sentido de ignorar. Esses pais expulsam de casa, em média aos 13 anos de idade, essas pessoas que automaticamente vão perdendo a chance de se lançarem em qualquer carreira e se inserirem na sociedade, pois a escolaridade é retirada no momento em que vão para as ruas. A gente vê na escola, uma reprodução fiel do que a sociedade tem feito com essa população, a escola não está preparada para nos receber, afirma.

Bruna
Bruna Benevides
Foto: João Monteiro

Recentemente o assassinato de Dandara dos Santos, 42 anos, em fortaleza no Ceará, por um grupo de cinco jovens repercutiu nacionalmente por meio de um vídeo que viralizou na internet onde os acusados realizavam atrocidades com ela, culminando em seu assassinato, não aparente no vídeo. As manifestações de indignação tomaram conta dos veículos de comunicação e redes sociais, e a visibilidade a essa causa tem tomado maiores proporções, mas muito ainda há pra ser feito. Assim como o caso de Dandara, diversas outras transexuais tem morrido pelo Brasil e os casos, alguns não solucionados, outros enquadrados em penas comuns, outros pouco esclarecidos precisam ser resolvidos de forma assertiva e justa.

Dandara foi vítima de transfobia
Dandara dos Santos
Foto: Reprodução da Internet

Para que esses crimes parem de acontecer é necessário mudanças primeiramente nas escolas, que precisam ter programas de prevenção do bullying LGBT-fóbico e educar contra o preconceito e a discriminação, fornecendo informações verídicas sobre sexualidade. Em segunda instância reconhecer o direito das pessoas trans. O Congresso Nacional deve aprovar a lei de identidade de gênero “João Nery” e a lei de casamento civil igualitário. Toda a experiência internacional mostra que a afirmação de direitos diminui a violência, os suicídios, a discriminação e o preconceito social, ressalta o Deputado Jean Wyllys.

E em terceiro lugar, porém não menos importante, é preciso um pacto nacional para isolar a questão, em outros países a defesa da cidadania LGBT não é uma questão partidária, de direita ou de esquerda, e sim consenso nacional. É preciso voltar para o humano, deixar de lado crenças e demais ideologias que possam segmentar, e pensar e agir de forma que os direitos para estes seres humanos sejam assegurados. Algo simples e que tem sido tão difícil no país, o direito sobreviver, de viver dignamente, humanamente.

*Imagem de capa da matéria – Wes Nunes

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